“Do silêncio que se fizera em seu espírito, ele sentiu, à maneira de reflexo que abandonasse um espelho, destacar-se um outro ser, ligado aos seus sentidos, mas alheio às paredes. Modelou toda a copa da árvore semi-invisível, o tronco, a inchação das raízes; as pedras úmidas, além; outras folhagens, um telhado escuro, a erva rala junto ao muro rachado _ coisas fugidias, a fasciná-lo com sua consistência de sonho. Fechou os olhos, isto não alterou a contemplação. Com aterrorizada alegria, sentiu-se disperso, livre na vastidão da manhã.”
 

“Aos poucos, refez-se do abalo. A suspeita aquietara-se em ressentida certeza. Surpreendia-a, apenas, haver sido cega a ponto de não perceber a verdadeira razão daquela ausência. Agora, porém, estava certa: ele não queria mais vê-la. Era isto o que ia lhe pedir para fazer; mas parecia-lhe vergonhoso que Artur, a quem mais prezava no mundo, tomasse, sob qualquer pretexto, a mínima iniciativa a respeito de suas relações, sem uma palavra, um assentimento comum. O que haviam gozado ou sofrido naqueles meses eram coisas mútuas e como tal deveriam ser consideradas. A ele, pois, não assistia o direito de interrompê-las. Mesmo assim, o fizera. Seria então seu destino não possuir jamais uma criatura amada a quem não arrebatassem o medo, a perfídia ou a morte?”
 
 

“ Parecia castigada , supliciada pela evocação do diálogo, aquele surdo, incrível diálogo, ao fim do qual _ havendo concordado, por falta de meios, em nada mais fazer pela criança _ ambos haviam como que ruído sobre o leito, exaustos cada um para seu lado e receando tocar-se, os braços em cruz, os olhos nas telhas vãs.
_ Deixá-lo morrer! _ continuava o homem. Seremos dois monstros? Como é que você pode concordar?
Ela se levantou, ficou de costas:
_ Não fale mais , Bernardo. Eu sabia!
_ Que é que você sabia?
_ Você tinha de terminar acusando-me. Não me acuse _ suplicou.
Ele escondeu o rosto nas mãos. Era a história de sempre _ as traições da alma. E chegaria assim ao fim de sua vida, jamais se dominando por completo, sempre em luta com as partes odiosas de si mesmo, aquelas que fugiam, que acusavam, que condescendiam. A quem sobre a terra, a quem no mundo quisera proteger como a Teresa? A quem mais fortemente amara? E quem, mais do que ela, merecia a sua proteção, o seu querer, seu zelo?”
 
 

" Vi nesse moço, quando me pediu a mão de Joana, o traço da morte. O aviso. O sinal. Tentei demovê-lo. Éramos gente sem posse, de poucas letras. “Não tem importância. Desde que vi sua filha, na procissão...Desculpe, mas desde aquela hora imagino-a como esposa. Quero tanto protegê-la!” “O senhor se engana, ela é que vai protegê-lo.” “Eu trabalho. Sou ferroviário.Terei promoções.” “Como é sua graça?” “Jerônimo José.” “Senhor Jerônimo, desculpe que lhe diga: tenho visto poucos homens tão franzinos. Não digo no corpo. È por dentro. Feito para trabalhar de ourives. Ou de imaginário, ficar sentado em si, fazendo nossas-senhoras, meninos jesuses. Gosta de Leituras?” “Leio muito.” Não tinha pai, nem mãe. Desatou em pranto, me apertando os dedos, como se eu houvesse descoberto as franquezas que ele mais tentasse esconder. Sempre fui mulher dura. Tenho duas torres na cabeça, sou a esposa, a igreja, a terrena, a que se polui, a que pare os filhos, a que transforma em leite o próprio sangue, a frágil. Não é assim que diz a liturgia? Pois se sou fraca, tenho de ser de pedra. Sou de pedra; mas também chorei. “Joana casará com você, meu filho. (Foi assim que o chamei.) Não tenha acanhamento de suas qualidades de menino. Sua fraqueza, a ignorância das coisas, as iluminações que os outros, quase todos acham de louco. Isso também são valores.”
 


"A Roos e as Cidades

Quando, afastado, segundo a visão ordinária do tempo, desta aventura dúbia, empreender falar de Roos, estarei repetindo, em certa medida, os nossos diálogos insuficientes. Darei sem esforço os traços próprios de Roos que surgem em outras mulheres: o sorriso fácil e a tendência a assumir sem transição uma atitude pensativa. (Aflige-a alguma lembrança pesada e indesejável.) Poderei, entretanto, descrever as cidades que flutuam no seu corpo como refletidas em mil pequenos olhos transparentes? Como dizer que penetro nesses olhos _ olhos ou dimensões _ e constato que as cidades, aí, são ao mesmo tempo reflexos de cidades reais e também cidades reais? Inumeráveis, íntegras, eis as cidades de Roos, erigidas nos ombros, nos joelhos, no rosto. Conheço, invasor, as suas ruas, seus edifícios desertos, seus veículos vazios, suas árvores, pássaros, insetos, flores e animais (nenhum ser humano), e os rios sob pontes frágeis ou magnificentes. Haia, Roma, Estrasburgo, Reims, Granada, Hamburgo. Sim, falar de tudo isso será refazer em outra direção, com idêntico malogro, os meus limitados diálogos com Roos.

 

Cecília entre os Leões

"Tudo percebo _ a encomendação do corpo, o trabalho dos coveiros, o pó nas lápides, as lamúrias discretas das mulheres _ e alheio a tudo, dentro de uma claridade que me ilumina por dentro e assemelha-se a um globo de espelhos em pedaços, com milhares de réstias que se cruzam, contemplo Cecília ao sol do meio-dia. Com os olhos (neles zumbem negros e rápidos leões), parece dizer-me: “Tenho a minha vida nas mãos, Abel. Recebe-a. Mas ouve: o amor, artefato de difícil manejo, é cheio de botões secretos e de facas que à mínima imperícia ou distração saltam voando e lanham a carne”. Engano-me, eu, se nessa companheira reconheço a minha substância? Ela emerge de mim e da minha vigília tão semelhante a um sono prolongado _ ela e os seus entes, uns nus, outros vestidos, uns sem armas, outros armados. Contemplo no seu corpo, assim parece-me agora, a minha e a sua memória, simultaneamente . As presenças humanas nessas memórias. Como se eu pudesse ver, ouvir, tocar as visões nem sempre nítidas, mas cheias de verdade e nunca fixadas em uma única idade de suas vidas, as visões ou espectros que habitam a memória e têm, junto com os brinquedos outrora possuídos e os lugares onde se viveu, o duvidoso nome de recordações. “Cecília, o equilíbrio é pouco seguro e ilusório, bem sei, quando o homem está nele incluído. Mesmo no Éden, esse estado perdura muito menos do que se pode esperar. Quantos passos daremos juntos?” Este minuto: espinhal desmesurado, esférico, a arder em torno de mim, como num fogo de diamantes."

 
 

`O´ e Abel: Encontros, Percursos e Revelações

"As gemas de vidro nas sandálias de `O´ adquirem um tom negro e a sua pele _ como imponderável e um tanto irreal _ absorve a luz vazante. Um vento rápido cruza as ruas sossegadas, revolve os seus cabelos, o vestido esvoaça, flores do tecido, ela ri e dá-me o braço (este peso, esta indefinível leveza!), o rosto junto ao meu, finas rugas tecendo-as nas pálpebras. Sombrios os armários, as gavetas, as malas, os porões, os fundos dos tonéis, os oratórios. Silenciam as cigarras de novembro, enganadas pela noite que se infiltra entre os ramos das árvores; mariposas começam a agitar-se nos seus esconderijos diurnos e aventuram-se indecisas no meio-dia turvo. Cassações e suspensões de direitos políticos: aguarda-se nova lista ainda hoje. A faixa do eclipse total, entretanto, fica a alguns poucos quilômetros de Rio Grande. Conduzidos por notícias imprecisas, fazemos extensas e dispendiosas viagens pra observar, na sua plenitude, um fenômeno que se prevê incompleto na cidade. Este engano, porém, lido de outro modo, será ainda engano?"

 

“No dia marcado, Maria de França, a quem não atinge o suicídio do noivo, está na Rua da Praia, sem companhia. Ninguém alude à recomendação de que o advogado e a mãe fossem com ela. O médico estudou o processo e está disposto a conceder despacho positivo, desde que receba, por escrito,“Comunicação de Serviço” emitida por um funcionário da Riachuelo. Vai Maria de França à Rua do Riachuelo. O funcionário, fazendo Maria de França portadora, escreve ao médico: resume o caso (quando o destinatário tem consigo toda a papelada) e emite o seu ponto de vista (quando esta função compete justamente ao médico). O médico, irritado, trata a portadora com brutalidade e rascunha novas instruções ao mesmo petulante escriturário, reiterando o pedido de “Comunicação de Serviço”.
Maria de França, a quem é confiada essa mensagem, em vez de voltar à Rua do Riachuelo e entregá-la (para novamente voltar e novamente voltar e novamente voltar ?), cruza o Recife com o papel na bolsa, ao acaso, medindo sem indulgência o espaço existente, enfranqueável, entre ela e os que passam. À sua frente vai um homem, com um volume embrulhado em folhas de jornal. Ela segue-o à distância. O desconhecido entra numa rua de pouco trânsito, desfaz o embrulho, retira uma pedra de calçamento, estende a mão direita sobre o meio-fio e esmaga-a, em três golpes. Vem correndo pela rua, mudo de dor, a mão sangrando. Imóveis, face a face, olham-se. Maria de França cruza com ele e segue em direção à pedra jogada no solo.”